Sábado, 25 de Setembro de 2010

POESIA POPULAR

TRIUNVIRATO

 

I

 

Pai quem é aquela

No coreto da praça

Com saia rodada

Espingarda de caça?

 

A senhora Política

Falando ao povinho

Que nunca a entende

E só bebe vinho

 

Por que veste assim

E vem de espingarda

Tem pregas tão fundas

Em saia tão parda?

 

Cada prega um partido

Todos vêm à caça

Trá-la às vessas

Para ver se passa

 

No direito é listada

Pra todos os gostos

Conforme ideais

Classes e postos

 

Do avesso é igual

Porque todos lá estão

É aliança táctica

Ou coligação

 

As pregas são fundas

Segundo a manha

Por isso em balão

De roda tamanha

 

Ninguém a percebe

Na lamúria gritada

A todos promete

Mas nunca deu nada

 

Meu povo! Meu povo!

Diz essa verdade

É dela inteiro

Eis a «igualdade»

 

 

II

 

Pai quem é aquela

No adro da igreja

Com a cruz na mão

Faz gestos pragueja?

 

A Senhora Religião

Falando ao povinho

Que não a entende

E quer ser santinho

 

Por que veste de negro

Tem a cruz na mão

Faz gestos pragueja

E diz «meu irmão»?

 

Ela veste de negro

Pois trabalho no escuro

Quanto menos se veja

Maior o seguro

 

Tem a cruz na mão

Só pra disfarçar

Pois tem os punhais

Atrás do altar

 

Ela não pragueja

Mas fala latim

Só na excomunhão

Faz cara ruim

 

Não se sabe onde

Diz ter um inferno

E quem se lhe opõe

Ir pró fogo eterno

 

A troco de um céu

Que não diz onde está

Explora o povinho

Mas nada lhe dá

 

Meus fiéis! Meus fiéis!

A verdade que diz

Porque o povo é fiel

Por isso infeliz

 

 

III

 

Pai quem é aquele

Vestindo elegante

Vem de automóvel

Com altifalante

 

É o Senhor Aldrabão

Falando ao povinho

Que não se apercebe

Do falso caminho

 

Tem ares de importância

Vestindo elegante

E fala no que for

Mesmo ignorante

 

No seu porte altivo

Parece eminência

Tudo compra e vende

Até consciência

 

Com altifalante

Chama a atenção

Faz-se ouvir longe

Nem parece ladrão

 

Só de automóvel

Vai a todo o lado

Um ladrão diferente

Bem acomodado

 

Está mui protegido

Tem leis a favor

Compra sua honra

Guarda e doutor

 

Com aquelas damas

Faz triunvirato

Tiram pão ao povo

Comem num só prato

 

A povo diz «Senhor!»

A única verdade

Merece senhoria

A honestidade

 

 

IV

 

Pai quem é aquele

Com a cabeça inchada

Nu e magrinho

Que nunca diz nada?

 

Esse é o povinho

De vida arrastada

Que houve charlatões

Ao largar a enxada

 

Porque vem nu magrinho

Tem a cabeça inchada

Escuta charlatões

E nunca diz nada?

 

Está nu magrinho

Pois tiraram-lhe tudo

A troco de mentiras

E ele ficou mudo

 

Tem a cabeça inchada

Pela confusão

Porque onde chega

Só houve aldrabão

 

Parece ser mudi

Pois vai oprimido

Mandam-no calar

Ao primeiro gemido

 

Não tem liberdades

São desses Senhores

Que mesmo charlatões

Alguns são doutores

 

Deixa que o mandem

Sente-se inferior

Ele mesmo a si

Não se dá valor

 

É tão desgraçado

Que nem se revolta

Da opressão miséria

Que sente à volta

 

Dão-lhe duas coisas

De resto mais nada

Por vezes favor

O vinho e enxada

 

 

V

 

Obrigado meu pai

Pela explicação

Eu quero ser povo

Odeio charlatão

 

Mas povo diferente

Vestido com pão

E se a cabeça inchar

Seja a revolução

 

Domingos Fialho Barreto

In "Rescaldos do Vinte Cinco de Abril" Poesias

 

Na nota introdutória o autor refere que o livro ficou concluido em 1978 mas o tema continua bem actual.

 

amarelejando às 17:11
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