Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

VER A MINHA AVÓ

"Imagino as tardes e as manhãs na sua casa como horas longas, infinitas no seu presente, nítidas, com tempo bastante para recordar idades que mais ninguém lembra sem ajuda.

Anda pela casa, vestida com as suas batas de viúva, e os seus passos apressam-se quando vai terminar de fazer qualquer coisa: lavar a roupa no tanque do quintal, esfregar os amarelos com o algodão, fazer renda. Ao acordar, cumpre a sua rotina precisa, bebe café por uma caneca e penteia os cabelos compridos, estendidos pelas costas, brancos. Esse é o único momento em que tem os cabelos soltos. Não sai todas as manhãs para comprar comida na mercearia. Sai em dias que conhece e escolhe. Sai de casa com o porta-moedas na mão. Todos os seus objectos, até o porta-moedas, têm uma história, chegam de um tempo que existiu antes de mim. Ela conhece os caminhos certos até à mercearia, diz bom dia a todas as pessoas que encontra e haverá pouco, nada, que a possa surpreender. Em casa, ela coloca os pés com cuidado sobre cada degrau das escadas de madeira, coloca os pés de lado e agarra-se ao corrimão. Na rua, ela desce a ladeira com o mesmo cuidado, sem degraus e sem corrimão. Regressará com sacos, com batatas pesadas por pesos pequenos. A minha mãe diz que a comida dela é muito fraca. Sobre isso, a minha mãe diz palavras como: umas couves cozidas. Às vezes, ela sai para a rua quando ouve a corneta do homem do peixe. Escolhe dois ou três pedaços de cação dos caixotes de madeira com gelo a derreter, da carroçaria soldada da mota. O homem do peixe, de capacete desapertado na cabeça, tem escamas coladas nos dedos e recebe moedas na palma da mão, concorda com as mulheres que lhe rodeiam a mota e concorda com ela. Noutros dias, tem consultas marcadas há meses no balcão da casa do povo e assinaladas a caneta bic no calendário onde não falta nenhum dia. Antes da consulta, a sala de espera com pessoas que conhece, com filhos e netos de pessoas que conhece. No inverno, sentam-se à frente de aquecedores de gás. As cadeiras são antigas e ouvem as conversas. Na sala de espera, há mulheres e há homens, também viúvos, têm camisolas interiores de algodão grosso, que aparecem por baixo das camisas, nas mangas, junto ao colarinho. Nas semanas seguintes, ela pensa muitas vezes em todos os pormenores dessas manhãs.

Em ocasiões, entra na casa das vizinhas. As portas estão abertas. As vizinhas entram na sua casa. E ficam a falar. Baixam a voz quando não querem que ninguém oiça, mesmo que estejam sozinhas, quando falam de ninguém: sabes o que aconteceu à, e dizem um nome qualquer. Tratarem-se por tu é a prova inusitada que, noutro tempo, foram novas, foram raparigas com ideias sobre o que seriam quando estivesses a idade que têm. Ficam por baixo de sombras claras ou, no inverno sentam-se ao lume, sempre aceso: as brasas revolvidas com a tenaz. Sem que ninguém o possa saber, a minha avó e as suas vizinhas existem por detrás da cal. Juntas lançam votos para um mundo concreto, feito de netos e de filhos, de filhas, a cumprirem assuntos abstractos com “os estudos” ambições, já não são necessárias. Ela espera os pequenos milagres: a água que deixa de escorrer fria no tanque em inícios de Junho, os naperons a ganharem idade, o pires que se parte quando lhe escorrega das mãos. Ela guarda os alfinetes espetados numa pequena almofada. Ela guarda postais de natal na gaveta. Ela senta-se no sofá que a filha lhe deu e fica a olhar para o quadro que comprou na feira, ou para o elefante de loiça, rodeado de caçadores que trepam pelo seu corpo com lanças que são palitos, ou para o pinguim de barro, sobre o frigorífico, com uma cartola. Por toda a cozinha ouve-se o relógio na parede, o ponteiro dos segundos.

À noite, ela liga a televisão a preto e branco. Aborrece-se com filmes porque não é capaz de ler as legendas. Pode ver a telenovela, mas a não lhe dar suficiente atenção, a esquecer os nomes e a suspeitar da história. Ela sabe que não é real. As lágrimas da rapariga triste são feitas de cera, ou são fingidas, o que é a mesma coisa. A rapariga triste da televisão não mora em nenhuma rua da nossa vila. Ao fim da noite, levanta-se para carregar no botão e desligar a televisão. Dormir é bom. Os lençóis estão limpos, passados, como se estivessem novos. Amanhã, outro dia. Hoje, ela tem a consciência em paz, conseguiu, uma vez mais, continuar a sua espera. Agora, ela quer esperar, essa é a idade que tem. Ela ajeita a cabeça na almofada, pousa as pálpebras sobre os olhos e adormece.

Ela ainda faz muitas coisas. Ela corta as unhas com a tesoura que está sempre guardada na caixa da costura e que, de dois em dois anos, manda amolar quando passa u galego de bicicleta a soprar numa harmónica. Ela não se dá bem com a dentadura postiça, acomoda-a na boca com a língua e, quando está sozinha, gosta de andar sem dentes. Ela faz um barulho fundo quando precisa de escarrar. A casa de banho não tem autoclismo, tem um jarro de plástico que se enche na torneira e que chega bem para aquilo que precisa, ela nunca se habituou a mais do que isso. A casa de banho não tem banheira, mas ela é muito asseada. Sem que precise de ser dito, todas as filhas sabem que quando perder o asseio é porque perdeu o juízo. Então, têm ordem para fazer dela o que quiserem porque, então, ela já não será ela. Os seus documentos continuarão ordenados guardados na gaveta, com as fotografias do seu rosto espantado, com o seu nome escrito por uma caligrafia de voltas tremidas, mas a vós com que dita pensamentos a si própria ter-se-á calado no seu interior. Se essa imagem se forma por um instante no seu espírito, ela expulsa-a de si à mesma velocidade. Ela respeita o tempo e acredita que o tempo a saberá respeitar também. Ela espera a camioneta da carreira duas ou três vezes por ano para ir ao mercado. Ela precisa da ajuda das vizinhas, no inverno, para guardar a lenha. Ela vai ao correio levantar a reforma.

Mas aquilo que sei ao certo é que, quando chego a casa dela, enfio a mão pelo postigo para abrir a porta. Ela vem depressa pelo corredor, entra na cozinha e alegra-se quando me vê. Ela chama-me: o meu Zé Luís. A voz dela é delicada porque, como os objectos, é antiga. Passou uma vida inteira por aquela voz. Então, ela tem uma lata com biscoitos sortidos, bolachas, bombons embrulhados em prata. Ela tem uma garrafa de vinho do Porto que apenas me serve a mim. Ela abre o armário, com vidros de correr, de onde tira um cálice pequeno que já esteve em muitos Natais, festas de anos, mas agora apenas me serve a mim. Existem as fotografias, emolduradas e vivas, sobre os móveis. Existe o raio de luz diagonal que atravessa uma fresta da porta. Existimos um diante do outro. Então, aquilo que há para dizer é a repetição de certezas e novidades ligeiras. O importante é que ficamos juntos por momentos, vemo-nos. Damos sentido um ao outro. E ela talvez se alegre no lugar onde estiver, e eu sinto saudades, muitas, de quando tinha a minha avó."

 

 

O conto é do José Luís Peixoto, mas quase podia ter sido escrito por mim, as suas palavras fazem-me lembrar a minha avó. A avó da história podia muito bem ser a minha.  Oelefante de loiça, da minha avó ainda lá está, no movel da entrada junto aos naperons de renda e aos retratos emoldurados e eu também sinto muitas saudades de quando tinha a minha avó.     

amarelejando às 23:18
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2 comentários:
De JAZMAL a 19 de Abril de 2011 às 12:44
Há coisas que nunca morrem.Sem ter para onde ir arruma-se um lugar, de coisas velhas e para velhos que nos trespassam como recordações numa prateleira.Esperam algo novo nessas «casas velhas», fruto de que foram ramo, galho e raiz.Estão lá, aguardando que assim floresçam e sejam apreciados por outros a carne frutuosa que é a sua.
De Maria José a 19 de Abril de 2011 às 14:55
Lindo. É bem verdade o que o conto descreve e eu ainda tenho a sorte de ter as minhas avós vivas e uma delas bastante espevitada :) uma com 90 e outra com 91 anos são a prova de que nós mulheres conseguimos resistir a tudo, espero conseguir ser um exemplo assim para os meus netos.

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