Sábado, 17 de Outubro de 2009

JÁ HOUVE EM AMARELEJA UM ENTERRO FESTEJADO

                                    

“Faleceu nesta aldeia, no dia 11 de Novembro de 1922, um nonagenário chamado Manuel Agostinho que, pelas suas chocarrices ficará célebre nesta terra, tanto mais que, até no seu enterro o seu temperamento jocoso, foi demonstrado. Este velho, (que até aos últimos momentos conservou as suas faculdades mentais), esperava a morte quási com entusiasmo pedindo a todos os seus contemporâneos que o acompanhassem à última morada, e se divertissem nesse dia.

Para isso, de há anos para cá, vinha depositando em várias adegas, dinheiro para a compra de vinho, que deveria ser bebido no dia do seu funeral, tendo também encomendado, e pago 4 foguetes para dar mais realce ao festejo… “fúnebre.”

Ao sentir aproximar-se o seu último dia, nomeou de entre os seus amigos, uma comissão que velasse pela execução dos seus desejos, fazendo-lhe entrega n’essa ocasião de uns versos, feitos por ele, que deveriam ser recitados, à beira do seu coval.

Pediu que a banda filarmónica o acompanhasse, mas que durante o trajecto não tocassem marchas tristes, para evitar tristeza ao acompanhamento, e para ele próprio não ter pena de abandonar a Amareleja.

Pediu mais que, ao lado do caixão seguissem dois homens com garrafões de vinho, mas, que à ida para o cemitério, ninguém bebesse, para evitar barulhos, que lhe podiam originar dor de cabeça.

Os versos mal feitos, é verdade (mas não admira porque o autor era analfabeto) são os seguintes:

I

Já cumprimos o pedido

Do nosso amigo leal,

Pois viemos acompanhal’o

‘Té à beira do coval

Por este lado está servido,

Agora Deus o ajude;

(Diz ele) -Fiz o que pude

Vamos nós lá a beber

O vinho à sua saúde

 

Façamos uma parada

Aqui à entrada da aldeia

O amigo já não passeia

E já não precisa de nada.

Já encetou a jornada

Quatro foguetes no cabo

Da festa, p’ra que tudo veja,

Que já hove em Amareleja

Um enterro festejado.

 

Faremos ‘inda outra parada,

No meio daquela travessa

Não queiramos que esqueça

O nosso amigo … de pançada,

Bebemos outra golada,

Da pinga que nos testou

E que ainda se não acabou

E não queremos que sobre nada

Pra ficar em nomeada

O dia em que se enterrou.

 

Escutem… se o padre da Póda

For quem vier ao enterro

Deem-lhe vinho sem medo

Antes de me acompanhar à cova

É essa a melhor prova

P’ra boa encomendação

E eu como bom christão

Quero ser bem encomendado

P’ra ir bem encaminhado

P’ró reino da salvação

 

A quem me enterrar… o coveiro

Dái também uma gotinha

P’ra que faça uma cova lisinha

Não vá eu esfolar o traseiro

É o José Rita Rafeiro

Que está agora ao serviço?

Talvez depois em eu indo

Já haja outro empregado

Talvez bem mais malcreado

E é isso que eu estou sentindo.

 

Uma coincidência digna de nota:

O velho em questão, dizia constantemente que maior satisfação levaria deste mundo se soubesse que morria em dia de São Martinho .

E desejava que fosse esse o último dia da sua vida, porque sendo esse dia, dia de bebedeiras, era provável que a corte celeste estivesse no mesmo estado e sendo assim facilmente poderia cahir na graça dos seus membros pois sempre fora um devoto a Bacho.

Foram pois cumpridos os seus desejos.

Deus chamou-o a si no dia de S. Martinho, os versos foram lidos à beira do seu coval, bebericando-se a valer no regresso e subindo ao ar após o seu funeral os foguetes para esse fim preparados.

A filarmónica acompanhou-o também e em vez de uma marcha fúnebre executou uma marcha grave.”

 

 

Fonte: Jornal de Moura edição de 26 de Novembro de 1922
amarelejando às 00:30
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3 comentários:
De NÓS POR MOURA a 20 de Outubro de 2009 às 14:32
Exmos.,
Venho por este meio dar a conhecer mais um espaço de informação, divulgação ou até mesmo de sugestões.
NÓS POR MOURA quer ser um espaço interventivo onde cada um de vós pode mostrar a sua indignação ou enaltecer o que de bom vamos fazendo por Moura.
Vários espaços desta natureza têm surgido e, sabe-se lá porquê, subitamente desaparecem. Não quero que seja este o caso. Quero maturidade no que aqui se faz. Quero que me acompanhe nesta caminhada, a qual, juntos, possamos contribuir para uma cidade de fazer inveja.
Quero que saiba também que, e apesar de só agora receber esta informação, o blog foi criado antes das eleições para que não se rotulasse de imadiato como "oposição". Este blog não é oposição, não quer ser oposição mas certamente vai mostrar muita coisa que poderá desagradar a quem está no poder e não só. Se assim for, tenho pena. Também eu não gosto de muita coisa que por cá se faz.
Dito isto, deixo-vos o convite para conhecerem e participarem em:
http://nospormoura.blogs.sapo.pt nospormoura@sapo.pt

De fernando mo1tal a 21 de Outubro de 2009 às 00:16
;D
De Ana Rita a 21 de Outubro de 2009 às 11:30
Fantástico!
Só poderia ser uma história vinda da Amareleja.
Obrigada pela partilha.
Quando nos voltarmos a encontrar imagino que teremos muitas histórias para partilhar.
O que senti enquanto aí estive foi que em cada dia vivia anos.
Nunca mais encontrei uma terra em que as pessoas tivessem tanto gosto pela vida, tanto sentido de humor e capacidade para rir de si próprias.
Abraço Fernando.

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