Domingo, 29 de Novembro de 2009

BREVE HISTÓRIA DE AMARELEJA

 

"Amareleja, freguesia do concelho de Moura e distrito de Beja situada em plena margem esquerda do Guadiana, tem algumas características especiais comuns a esta região, muito condicionada pela geografia e história.
Situada a uns três quilómetros do alto Alentejo (concelho de Mourão, distrito de Évora ), e a uns seis da fronteira espanhola, tem em Valência del Monbuey, com quem recentemente foi geminada, a mais próxima povoação da Estremadura espanhola, integrada em termos administrativos na província de Badajoz.
Não abundam os dados sobre a Amareleja antiga. Sabe-se que estes campos foram povoados desde os tempos mais remotos, havendo em termos arqueológicos, vestígios, nomeadamente a nível de enterramentos e algum espólio (cerâmica e vasos) da época romana. As margens dos ribeiros do Moinhato e Vale Tamujo- a região conhecida por Vale Navarro – são as que mais restos do passado concentram.
Quanto ao nome, há também muitas dúvidas, e aceita-se, como hipótese mais sustentável que o nome da povoação tenha derivado do grande número de flores amarelas que na Primavera cobrem os campos. Nos últimos anos tem-se escrito e dito que a povoação se formou a partir de pastores transumantes, que no início da nacionalidade, aqui começaram a acampar vindos do país vizinho, e das Beiras. Mas a verdade é que não há nenhum indício ou documento que aponte nesse sentido devendo pois entender-se tais origens como meras convicções pessoais. A única coisa que, com segurança, se pode afirmar é que só em 1527 a Amareleja aparece pela primeira vez referenciada num documento – o censo de D. João III - então com o nome de Marellega, e sendo nessa altura a quarta povoação, em importância e habitantes, no concelho de Moura.
Sabe-se ainda que estes campos se desenvolveram, como em todo o sul do País, sob a influência das ordens, com destaque para as de Malta e Hospital. A localização da Amareleja, em matéria geográfica, também não ajuda em termos de procura das origens. A margem esquerda do Guadiana, na qual se insere, só se tornou definitivamente Portuguesa a partir de 1295 ou, mais provavelmente, 1297, na sequência do Tratado de Alcanices, com que D.Dinis traçou as actuais fronteiras do País. Antes disso, essa região, no prosseguimento da Reconquista, era com frequência, mercê de ocupações militares, tratados e doações, ora Portuguesa, ora Islâmica, quando não Leonesa e Castelhana.
Todos estes conflitos se repercutiram na actividade económica, havendo igualmente documentação, que refere os prejuízos a nível agrícola e pecuário, verificados em diversas propriedades vizinhas da Aldeia. Por esses tempos, algumas das principais famílias do Reino, como as casas de Aveiro, Távora e Santa Cruz tinham aqui propriedades.
Outras épocas conturbadas, como as guerras napoleónicas e as guerras civis dos princípios de oitocentos deixaram, igualmente marcas na Aldeia.
A partir de 1850, e coincidindo com o período de estabilidade na vida nacional, a Amareleja começou a distanciar-se das povoações vizinhas, com um notório incremento da produtividade agrícola e grande crescimento populacional. Em finais desse século era já a mais populosa e importante freguesia do Concelho.
Entrando o século XX, o desenvolvimento não pára e nos anos trinta e quarenta, com cerca de 9000 habitantes, torna-se na maior Aldeia do País, com população e actividade superior á de muitas sedes de concelho e até de algumas cidades.
Por essa altura os seus habitantes eram tidos como muito empreendedores e trabalhadores, estendendo a sua actividade não só pelas povoações próxima, como terras afastadas.
Se, em geral, uma povoação cresce, atinge um máximo, estaciona e começa a decair, em Amareleja não sucedeu exactamente assim. Nos anos trinta, quando a Aldeia chegava ao seu expoente demográfico, ao máximo da população até então conseguida, já, uns bons anos antes começara a expulsar gente. Ou seja, crescia mas sem conseguir absorver todos os seus filhos.
A inicio este movimento migratório dirigiu-se, maioritariamente para as povoações vizinhas. Depois, outras zonas do Alentejo e Lisboa. Seguindo-se o resto do País e o estrangeiro.
Nos anos sessenta, como em todo o interior, a fuga atingiu o máximo, encabeçada por Lisboa e arredores, outros pontos atractivos do Litoral e Europa comunitária. Daí para cá o despovoamento prosseguiu, num processo que não mais teve fim.
Que motivos levaram a este despovoamento?
Para além das razões nacionais e internacionais crises económicas, guerras, opções estratégicas, comuns a todo o País (e não só) há aspectos que os locais já nos anos trinta e quarenta apontavam.
Em primeiro lugar, a área da freguesia, muito pequena para nela se poder movimentar e produzir tão grande população. Outras freguesias do concelho, com muito menos população tinham e, ainda hoje têm, áreas maiores. Em segundo, uma divisão administrativa anacrónica colocava (situação que ainda hoje se mantém) grande parte das terras da Aldeia nas freguesias vizinhas – Póvoa – Estrela, Santo Amador e Granja, esta noutro concelho. Em terceiro a rede viária, praticamente inexistente afectava grandemente os produtivos, comércio e exportação incluídos.
Conscientes do problema, as Juntas de Freguesia da época tentaram que se trouxesse para ela uma delegação do fisco, notariado, parte das contribuições pagas e vias de comunicação. Pretendiam ainda, com estas medidas, preparar as bases para uma autonomia, em vista á criação de um pequeno concelho.
Frustrado tudo isto e, atento ainda o desinteresse do poder central, a incapacidade local e nacional em absorver tanta gente dinâmica só podia levar a um êxodo rural e uma emigração sempre crescente.
A maior aldeia do País apagava-se progressivamente, desertificada e envelhecida, apesar de algumas das suas produções - uvas de mesa, passas de uva, vinho e melões – gozarem de justa fama por todo o País.
E foi assim que, um pouco por todo o lado que os Amarelejenses se foram espalhando. Só em Lisboa e arredores, incluindo a sua descendência, contam-se milhares. Muitos há ainda noutras regiões do Pais e por esse Mundo fora, não é difícil encontrar gente da Amareleja, em todos os Continentes. Em 1991, foi a Amareleja elevada a Vila numa época em que a sua população era já menos de metade da que contava nos tempos áureos. Acrescente-se porém que esta promoção, meramente honorifica, nenhum benefício por, si só trouxe.

Resta esperar que as grandes alterações trazidas pelo empreendimento de Alqueva possam ao menos, estancar a hemorragia."

 

Norberto Franco - 2002

 

 

amarelejando às 02:04
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5 comentários:
De fernando mo1ta1 a 29 de Novembro de 2009 às 11:35
Viva Cidália,
muito fixe! Parabéns e obrigado pela partilha de mais um bom post!
Que pena não se conhecer o (a) autor (a) do texto. ninguém sabe?
abraço e estima
FM
De amarelejando a 29 de Novembro de 2009 às 12:12
Viva Fernando

Este texto chegou até mim através de duas alunas do curso de informática, foi publicado num livro das Festas de Santa Maria há alguns anos. Achei que estava bastante resumido e ao mesmo tempo completo, por isso quis partilhar.

De Sérgio Lourinho a 29 de Novembro de 2009 às 15:02
Texto publicado no livro da comissão de festas da Santa Maria de 2002, autor do mesmo, Norberto Franco.

Cumprimentos...

Sérgio Lourinho
De amarelejando a 29 de Novembro de 2009 às 15:15
Olá Sérgio

Obrigado pela informação. Por acaso o Norberto até estava no curso, já não se deve lembrar de ter escrito o texto.

cumprimentos
Cidália
De Anónimo a 5 de Dezembro de 2009 às 11:23
isto é tudo muito lindo. A Amareleja é falada no mundo inteiro graças a tudo o que se tem feito ultimamente. Muito bem Amarelejenses.

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