Sábado, 6 de Março de 2010

SIMPLESMENTE EUNICE

 

Por MARIA JOÃO CAETANO Hoje Aqui

 

 

Continua a trabalhar com humildade  e dedicação. Está a gravar uma telenovela  e, anda em digressão pelo País com 'O Ano do Pensamento Mágico'

No final do ensaio de O Ano do Pensamento Mágico, o pungente monólogo de Joan Didion que Eunice Muñoz estreou em Novembro do ano passado no Teatro Nacional D. Maria II, uma pequena multidão de jornalistas junta-se para falar com aquela que muitos consideram a maior actriz portuguesa. Querem saber como é que fez para, aos 82 anos, decorar um texto tão extenso, se se emocionou durante os ensaios, a que parte do seu passado vai buscar as lágrimas que derrama em cena. A tudo Eunice responde numa voz pausada: "É o meu trabalho. Tenho que saber o texto, tenho que chorar quando o encenador me diz que devo chorar. Sou uma actriz muito obediente." Como se fosse simples. Como se não fosse preciso talento. De olhos no chão, enroscando as mãos uma na outra, a tímida e franzina Eunice Muñoz não gosta muito de falar do seu trabalho. Quem não a conhecesse não imaginaria. Mas no palco agiganta-se. Transforma--se. "É a minha profissão."

Quando esta semana lhe perguntámos qual o segredo para tanto sucesso, Eunice Muñoz falou da sorte. "Tive muita sorte", disse. Uma frase repetida em todas as entrevistas que deu ao longo da sua carreira. Só depois refere os mestres com quem aprendeu e, por fim, admite o mérito próprio. E sublinha: "Sempre me interessou mais o lado artístico do que o material. Queria interpretar grandes textos. Ainda hoje não consigo dizer que não a um bom texto."

Eunice é "uma actriz por herança", que descende de uma família de três gerações de actores. Os espanhóis Muñoz no teatro, os sicilianos Cardinalli no circo. Alentejana, da Amareleja, em criança, quando viajava com os pais e o seu teatro desmontável pela província, tinha uma relação de amor-ódio com o teatro. Percebia as dificuldades e a instabilidade daquela vida mas também porque, quando chamada ao palco, o que começou a fazer logo aos cinco anos, não se conseguia abstrair do público que a olhava. "Inventava até dores de barriga para evitar as caras assustadoras que olhavam para mim", contou em várias entrevistas.

Apesar disso, "alguém reparou" nela e, sem saber muito bem como, teve oportunidade de, em 1941, se estrear no Teatro Nacional com a peça O Vendaval. Eunice tinha 13 anos. "Tive uma sorte imensa de ter comigo a primeira companhia do País, com os maiores actores e as maiores actrizes, como a Amélia Rey Colaço que foi minha mestre muito querida." Alves da Cunha, Maria Matos, Palmira Bastos e João Villaret foram alguns dos que a acompanharam no início da carreira.

Nessa altura, foi estudar para o Conservatório, que haveria de terminar com 18 valores. Estava ainda a tirar o curso quando arrebatou com a sua interpretação em Camões, filme de Leitão Barros, o prémio de melhor actriz de cinema atribuído pelo SNI - Secretariado Nacional de Informação.

Aos 18 anos, a paixão falou mais alto. Casou-se com o arquitecto Rui Couto, com quem teve uma filha. A carreira ia de vento em popa mas Eunice estava insatisfeita. Em 1951, tinha 23 anos, suspendeu a actividade. Queria dedicar-se à família. Precisava pensar na sua vida. Foi trabalhar para uma loja de cortiça, Mr. Cork, no Príncipe Real, onde se tornou uma atracção turística - não podendo vê-la em palco, os fãs iam vê--la ao balcão. "A experiência tornou--se insuportável e acabei por tirar um curso de Secretariado."

Foi um "percurso que teve de ser feito", recordaria mais tarde, sem qualquer mágoa. Trabalhou depois numa fábrica de materiais eléctricos, no Barreiro, onde acabou por conhecer o seu segundo marido, engenheiro, com quem teve três filhos. "Um excelente homem que sempre quis que eu desse o melhor de mim e, por isso, sempre preparou tudo à minha volta para eu poder trabalhar e sentir-me liberta. Ele teve uma grande compreensão para com a minha profissão porque era meu admirador mesmo", contou numa entrevista em 2007. Foi ele que a incentivou a voltar ao teatro, o que acabaria por acontecer em 1956, a convite de Vasco Morgado, para interpretar Joana d'Arc, de Anouilh, no Teatro Avenida. Sucesso estrondoso.

Às vezes, é preciso afastarmo-nos de algo para percebermos o quanto nos faz falta. Também foi assim com Eunice Muñoz. Voltou apaixonada pelo representação, decidida a dar tudo por tudo. Nunca mais parou. Para a história ficam espectáculos como O Milagre de Ann Sulivan (1963), Mãe Coragem e Seus Filhos (1986), Zerlina (1988), O Caminho para Meca (1995), Madame (2000) ou Miss Daisy (2006). Habituámo- -nos a vê-la no cinema, a ouvir a sua voz a declamar poesia e, desde A Banqueira do Povo (1993), é presença assídua também na televisão. Ganhou prémios, foi homenageada vezes sem conta, tem um teatro em Oeiras com o seu nome. Teve reveses, na vida e na carreira, mas deu sempre a volta por cima sem fazer grandes alaridos. Eunice ganhou o direito a ser simplesmente Eunice.

"É uma profissão difícil, exigente se a queremos levar a sério", diz ao DN. Uma profissão difícil para uma mãe de seis filhos (a última com o seu terceiro marido, o escritor António Barahona), com espectáculos pela noite dentro, digressões, uma vida pública. Estudava as falas enquanto fazia o jantar. Habituou-se a ignorar os comentários que não lhe agradavam. Aprendeu a viver na incerteza de que é ser actriz.

Uma profissão "cruel" também. "Porque exige grandes esforços. Obriga a despir-nos perante essa realidade, que acontece tantas vezes, de que não conseguimos, que não chegámos lá, que nos faltou alguma coisa." No entanto, "a paixão" obriga-a a continuar. "Tudo o que faço agora é porque gosto." Até quando? "Quero abandonar os palcos com dignidade", garantiu em 2006. "Peço a Deus que me dê discernimento para perceber quando devo sair e não me deixe cair no ridículo."

Eunice Munhoz nasceu na Amareleja e por aqui viveu até aos quatro anos de idade. Hoje existe nesta Vila uma rua com o seu nome, fica na zona do Alto Bombel a mesma onde hà quase 80 anos a actriz morou.

 

amarelejando às 17:14
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