Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

HISTÓRIA DO ENSINO NA FREGUESIA DE AMARELEJA

 

Apurou o Padre Lobato que, tanto quanto se sabia, a primeira pessoa que aqui se dedicou a ensinar crianças foi Agostinho Freire, indivíduo ligado, por uma sua tia, aos Távora, que aqui tinham propriedades, e por cá teria ficado depois do aniquilamento dessa família por Pombal. Teria criado uma pequena escola para ganhar a vida e exerceu também o lugar de escrivão na Confraria do Santíssimo Sacramento nos primeiros anos do séc. XIX. Em 1863, ainda segundo o autor, lia-se nas actas da Junta de Paróquia que a mesma, convocada pelo comissário de estudos do distrito, Francisco da Cunha Rego, lhe sugeriu tomasse em consideração o Ofício Circular de 30 de Junho desse ano. Nos termos do mesmo, deveria a Junta pronunciar-se sobre o interesse em criar aqui o ensino primário para o sexo feminino, instalações, mobiliário e utensílios. Queria a Coroa difundir pelo país o ensino primário, mas estando os cofres públicos vazios, solicitava que a junta e particulares auxiliassem o Governo e fornecessem ainda material para as escolas.
 
Deliberou a Junta que:
 
-Considerava da maior urgência e necessidade a criação do ensino para o sexo feminino;
-Dada a população da freguesia, o mesmo poderia servir mais de 60 alunas;
Fornecia casa, mobília e utensílios;
-Fornecia, para a escola, do sexo masculino o mesmo, pagando também a renda da casa;
-Daria ainda uma verba, específica, para pagamento de livros e demais necessidades para as escolas dos dois sexos. Para fazer face a esta sobrecarga do erário local, propôs o Regedor da Paróquia que se aumentasse cem porcos ao número dos já orçados a admitir no logradouro comum para o aproveitamento da bolota. Daqui se esperava uma receita suplementar, superior a 50.000 réis.
 
Em 1865 a Junta deu mais um passo para a concretização, com uma dotação de 14.400 réis e mobília, começando a escola feminina pouco depois.
 
Em 1867 verificavam-se dificuldades a escola necessitava de mais material e melhoramentos e a frequência era reduzida. Solicitou-se então à inspecção o fornecimento de mais livros e outro material didáctico, mobília e diversos.
 
No ano seguinte e com a aprovação superior, trataram a Junta e o Regedor da empreitada para a construção de um edifício escolar, tendo a mesma disponibilizado 530.650 réis. Deu-se assim o primeiro passo para aquela que serviu de escola feminina até há poucas décadas, conhecida por Escola Régia. Em 1874 e 1875, e com o apoio da Câmara decidiu-se a construção, a criação de um curso nocturno para adultos e a nomeação de uma comissão para acompanhar a questão do ensino na aldeia.
 
 
 
A partir de 1878, data em que a legislação tornou obrigatório o ensino, ficou o processo mais facilitado. O primeiro professor oficial, Agostinho Aresta Jorge era da terra e supõe-se que já leccionava em 1867. Os professores oficiais que se lhe seguiram eram também daqui embora continuasse a haver escolas particulares, as chamadas “escolas de paga”. (….)
 
Em 1931, como já se assinalou, apelava a Junta para a necessidade de mais professores e salas de aula, carência essa que privava de instrução cerca de 400 crianças. Nesse ano a frequência escolar oficial era de 250 alunos, havendo 4 professores. No ensino particular eram 3 os professores e 150 alunos. O recenseamento escolar obrigatório, já previsto na legislação de 1878 acusava, na altura 435 rapazes e 353 raparigas, pelo que , devido às carências anotadas, ficavam d fora “da luz benéfica da instrução” 388 crianças. (….)
 
Em 8 de Setembro de 1951, as novas eram igualmente boas:
“Pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – Delegação das Obras de Construção de Escolas Primárias – acaba de ser concluído um edifício escolar de quatro salas, na importante freguesia de Amareleja – do plano dos Centenários – Será custeado em partes iguais pelo Ministério das Obras públicas e pela Câmara Municipal de Moura.
É provável que já possa funcionar no inicio do ano escolar, em Outubro (….) ”
 
Em 1 de Fevereiro de 1954, numa reunião em Amareleja, com a presença de entidades oficiais e gentes da terra, decidiu-se criar uma cantina escolar.
 
Em 1 de Agosto de 1959 A Planície informava que tinha sido concedida autorização do Ministro da Educação para que se realizassem os primeiros exames da 4.ª classe, na freguesia de Amareleja, permitindo assim que muitas crianças oriundas de famílias pobres pudessem concluir o ensino primário
 
Fonte: Amareleja Aspectos Históricos de Norberto Franco.
 
 

Contava-me o meu avô no outro dia que não concluiu a 4.ª classe precisamente por esse motivo. O exame era feito em Moura, na altura os pais não tinham posses para pagar as despesas da viagem, e mesmo sendo um excelente aluno não pode concluir o ensino primário porque faltou ao exame final.

amarelejando às 22:30
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Sábado, 17 de Outubro de 2009

JÁ HOUVE EM AMARELEJA UM ENTERRO FESTEJADO

                                    

“Faleceu nesta aldeia, no dia 11 de Novembro de 1922, um nonagenário chamado Manuel Agostinho que, pelas suas chocarrices ficará célebre nesta terra, tanto mais que, até no seu enterro o seu temperamento jocoso, foi demonstrado. Este velho, (que até aos últimos momentos conservou as suas faculdades mentais), esperava a morte quási com entusiasmo pedindo a todos os seus contemporâneos que o acompanhassem à última morada, e se divertissem nesse dia.

Para isso, de há anos para cá, vinha depositando em várias adegas, dinheiro para a compra de vinho, que deveria ser bebido no dia do seu funeral, tendo também encomendado, e pago 4 foguetes para dar mais realce ao festejo… “fúnebre.”

Ao sentir aproximar-se o seu último dia, nomeou de entre os seus amigos, uma comissão que velasse pela execução dos seus desejos, fazendo-lhe entrega n’essa ocasião de uns versos, feitos por ele, que deveriam ser recitados, à beira do seu coval.

Pediu que a banda filarmónica o acompanhasse, mas que durante o trajecto não tocassem marchas tristes, para evitar tristeza ao acompanhamento, e para ele próprio não ter pena de abandonar a Amareleja.

Pediu mais que, ao lado do caixão seguissem dois homens com garrafões de vinho, mas, que à ida para o cemitério, ninguém bebesse, para evitar barulhos, que lhe podiam originar dor de cabeça.

Os versos mal feitos, é verdade (mas não admira porque o autor era analfabeto) são os seguintes:

I

Já cumprimos o pedido

Do nosso amigo leal,

Pois viemos acompanhal’o

‘Té à beira do coval

Por este lado está servido,

Agora Deus o ajude;

(Diz ele) -Fiz o que pude

Vamos nós lá a beber

O vinho à sua saúde

 

Façamos uma parada

Aqui à entrada da aldeia

O amigo já não passeia

E já não precisa de nada.

Já encetou a jornada

Quatro foguetes no cabo

Da festa, p’ra que tudo veja,

Que já hove em Amareleja

Um enterro festejado.

 

Faremos ‘inda outra parada,

No meio daquela travessa

Não queiramos que esqueça

O nosso amigo … de pançada,

Bebemos outra golada,

Da pinga que nos testou

E que ainda se não acabou

E não queremos que sobre nada

Pra ficar em nomeada

O dia em que se enterrou.

 

Escutem… se o padre da Póda

For quem vier ao enterro

Deem-lhe vinho sem medo

Antes de me acompanhar à cova

É essa a melhor prova

P’ra boa encomendação

E eu como bom christão

Quero ser bem encomendado

P’ra ir bem encaminhado

P’ró reino da salvação

 

A quem me enterrar… o coveiro

Dái também uma gotinha

P’ra que faça uma cova lisinha

Não vá eu esfolar o traseiro

É o José Rita Rafeiro

Que está agora ao serviço?

Talvez depois em eu indo

Já haja outro empregado

Talvez bem mais malcreado

E é isso que eu estou sentindo.

 

Uma coincidência digna de nota:

O velho em questão, dizia constantemente que maior satisfação levaria deste mundo se soubesse que morria em dia de São Martinho .

E desejava que fosse esse o último dia da sua vida, porque sendo esse dia, dia de bebedeiras, era provável que a corte celeste estivesse no mesmo estado e sendo assim facilmente poderia cahir na graça dos seus membros pois sempre fora um devoto a Bacho.

Foram pois cumpridos os seus desejos.

Deus chamou-o a si no dia de S. Martinho, os versos foram lidos à beira do seu coval, bebericando-se a valer no regresso e subindo ao ar após o seu funeral os foguetes para esse fim preparados.

A filarmónica acompanhou-o também e em vez de uma marcha fúnebre executou uma marcha grave.”

 

 

Fonte: Jornal de Moura edição de 26 de Novembro de 1922
amarelejando às 00:30
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