TRIUNVIRATO
I
Pai quem é aquela
No coreto da praça
Com saia rodada
Espingarda de caça?
A senhora Política
Falando ao povinho
Que nunca a entende
E só bebe vinho
Por que veste assim
E vem de espingarda
Tem pregas tão fundas
Em saia tão parda?
Cada prega um partido
Todos vêm à caça
Trá-la às vessas
Para ver se passa
No direito é listada
Pra todos os gostos
Conforme ideais
Classes e postos
Do avesso é igual
Porque todos lá estão
É aliança táctica
Ou coligação
As pregas são fundas
Segundo a manha
Por isso em balão
De roda tamanha
Ninguém a percebe
Na lamúria gritada
A todos promete
Mas nunca deu nada
Meu povo! Meu povo!
Diz essa verdade
É dela inteiro
Eis a «igualdade»
II
Pai quem é aquela
No adro da igreja
Com a cruz na mão
Faz gestos pragueja?
A Senhora Religião
Falando ao povinho
Que não a entende
E quer ser santinho
Por que veste de negro
Tem a cruz na mão
Faz gestos pragueja
E diz «meu irmão»?
Ela veste de negro
Pois trabalho no escuro
Quanto menos se veja
Maior o seguro
Tem a cruz na mão
Só pra disfarçar
Pois tem os punhais
Atrás do altar
Ela não pragueja
Mas fala latim
Só na excomunhão
Faz cara ruim
Não se sabe onde
Diz ter um inferno
E quem se lhe opõe
Ir pró fogo eterno
A troco de um céu
Que não diz onde está
Explora o povinho
Mas nada lhe dá
Meus fiéis! Meus fiéis!
A verdade que diz
Porque o povo é fiel
Por isso infeliz
III
Pai quem é aquele
Vestindo elegante
Vem de automóvel
Com altifalante
É o Senhor Aldrabão
Falando ao povinho
Que não se apercebe
Do falso caminho
Tem ares de importância
Vestindo elegante
E fala no que for
Mesmo ignorante
No seu porte altivo
Parece eminência
Tudo compra e vende
Até consciência
Com altifalante
Chama a atenção
Faz-se ouvir longe
Nem parece ladrão
Só de automóvel
Vai a todo o lado
Um ladrão diferente
Bem acomodado
Está mui protegido
Tem leis a favor
Compra sua honra
Guarda e doutor
Com aquelas damas
Faz triunvirato
Tiram pão ao povo
Comem num só prato
A povo diz «Senhor!»
A única verdade
Merece senhoria
A honestidade
IV
Pai quem é aquele
Com a cabeça inchada
Nu e magrinho
Que nunca diz nada?
Esse é o povinho
De vida arrastada
Que houve charlatões
Ao largar a enxada
Porque vem nu magrinho
Tem a cabeça inchada
Escuta charlatões
E nunca diz nada?
Está nu magrinho
Pois tiraram-lhe tudo
A troco de mentiras
E ele ficou mudo
Tem a cabeça inchada
Pela confusão
Porque onde chega
Só houve aldrabão
Parece ser mudi
Pois vai oprimido
Mandam-no calar
Ao primeiro gemido
Não tem liberdades
São desses Senhores
Que mesmo charlatões
Alguns são doutores
Deixa que o mandem
Sente-se inferior
Ele mesmo a si
Não se dá valor
É tão desgraçado
Que nem se revolta
Da opressão miséria
Que sente à volta
Dão-lhe duas coisas
De resto mais nada
Por vezes favor
O vinho e enxada
V
Obrigado meu pai
Pela explicação
Eu quero ser povo
Odeio charlatão
Mas povo diferente
Vestido com pão
E se a cabeça inchar
Seja a revolução
Domingos Fialho Barreto
In "Rescaldos do Vinte Cinco de Abril" Poesias
Na nota introdutória o autor refere que o livro ficou concluido em 1978 mas o tema continua bem actual.
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