Esta é uma secção que pretende mostrar aos mais novos como se falava há alguns anos atrás em Amareleja, actualmente só os mais velhos utilizam alguns termos aqui referidos, os textos desta secção são retirados do livro de Norberto Franco “Amareleja – Linguagem Regional e Popular”, e a sua reprodução está autorizada.
- Mano Focinhudo, traga lá mê litrinho e dôs copos. E uma ervelhanita.
- Ervelhanas nã hai. Só tramoços.
- Tão compadre, tens munta azêtona ó não?
- Baá! Aquilo tá mum apurado est’ano. Andi prantando aquelas oliveras lá da raça do diabo e nã ategam de manera nenhuma. Esse malsoado desse engenhero é que teve a culpa com o adube aquilo foi um chimbalau e abrasaram-se metade.
- É isso, homem. Eles lêem essas coisas lá nos livros e di vai-se a ver, comprom-se as arves, é um afundidoiro de denhêro e adiós quinin.
- Eh, mano Focinhudo, adonde foi vocemecêi a arranjar esta vinagreta? Grande Zurrapa!
- Pôs nã se tenhem quexado, mas ele já se sabe c’os vinhos nesta altura nã podem ser mum bons. Venhem de Reguengos e dessas bandas.
- Al sará ná abale daqui com alguma soltura como da outra vez!
- Ora se borrecheares a más da conta...
- Milagre! Mas s’ele fora bom nã dava agasturas não. A minha tarefa já tá furvendo e foi fêta no tarde, vam’lá a ver o que sairá dali.
- Ovi por í um zum-zum que tu ias a comprar as fazendas do mano Zéi Pintadinho, ó sará mintira?
- Ê ainda nã apalavri nada com o home nem le fiz a conversa, só dêti uma pedrinha a arrabolar. Mas ele é mum catingo!
- Ich! Más bem morria ele com uma barrigada de fome do que gastar déz’minréis pra pôr um jentar ô lume. Em chigando ô Verão só o que come é pão com figos e saramenhos. Um cínico!
- Boa tarde cá d’opéi!
- Salve-o deus mano Tónico. Vai um copinho?
- Vá lá, qu’isto é uma boa rapaziada. Vocemecêses já ouviram dezer que vieram aí esses de Beja ó das finanças lá de Moira a améziar a nossa vezinha, a mana Ramelosa?
- Ná.
Des’que tem uma paga atrasada, já foi a relaxe e querem’le apanhar as casas sem sequer as casas serem dela, eraom da erma, môde umas corelinhas do marido, andam p’ra lá já os sobrinhos na justiça, c’aquilo é o enleio da rua da Coitada!
- S’ainda otredia um republicano m’afincou uma pua por casa da lecença do cão, é esse bimbalhaço que tá p’rá í, é más mau c’uma dor de barriga. Só sabem murtar. Tive c’arrotar com um dinherão.
- O qu’ê digo é c’um homem que tenha a pôca sorte d’ir a parar às gaivas lá desses das finanças até a camisa le tirom.
- E logo a desenfeliz da mana Ramelosa, c’a única coisa que tem é um oco ali no cemetério!....
....
- Por falar na vila, se ná me passa esta pontada aqui nas cruzes tarei que m’ir a amostrar ô dôtor, atei já ando derrengado.
- cando ê andi enssim, compadre Manéli, entarri cãs duzentos minréis em mezinhas e com o dotôri, ainda m’arrimô umas enjecções e más uns pozes p’ra buber, mas aquilo foi com’as açordas. Nã vás à velha Bicuda, des’ c’amanha mum bein esses desmanchos?
- Se fora desmancho, mas isto sã pontadas, parecem umas tanazes apertando á volta da lombêra.....
....
- Beim rapazes, bubemos más uma corrida que pago eu, vamos a bater a granada e tulha.
- Tará que ser. A terra agora tá boa p’ra lavrar, ergue-se um homem ô acender das candeias e já dá um despacho bom.
- Pois ~e se fora à mana ramelosa cando os apanhasse cá na aldêa outra vez embelga’vôs, havia que ter a carrera c’os bichos atiravom, só paravom nos quintos dos infernos.
- E o qué c’adientavas com isso? Iam a dar parte ô quartéli pregavom-te uma carga de estoiros c’até impavas, e largavas o denhêro.
- Ê luvaria a sumana mas eles tinhom c’agrazinar munto, com uma gotêra na corna, até sô capaz de morder nas panelas!
- Báa!
- Ora escute, ó Focinhudo, vê lá se t’enganastes no agarrafão. Desconfique esta charopada inda é pior c’a outra....
....
- Olha o mê rapazinho! – Ó Zei, anda cá! Vai lá a casa e diz à mãe que te dêa um carolo e uma migalha de conduto. Vai ascápe!
- Este Costa é que ta bem cachimbado, com aquela rapariga nova com quem s’ajuntô.
- Isso é más certo que pardal
...
- Homens velhos com mulheres novas nã ocha.
- Há de le prantar más cornos c’um saco de caracóis.
- Aquela magana manda cá uma pastaje! Ê inda nã vi mas a bicha é mum escura.
- Sorte tará lá à tua espera com ela escarlochada. Nã tens lá a ta p’ra te governares?
- Elas tenhem lá aqueles dias certos e em nã querendo também nã é à valentona.
- Vocês hoje tã mum canalhas, só com a navalhinha afiada. Bebom lá isso e vamos ô jentar. Olhem o manel, ‘tá ali marrando no balcão há uma hora, já nã s’entende o que diz, só mastigando mato.
- Pois éi compadre, quando houver vinho novo hás-de experimentar o do Vítor, c’aquilo até as unhas dos péis s’enrolam.
- Sabes tu?
- Já o provo por cima, aquele est’ano é o Arriaga, que coisa tã dem apaladada e até é más bem froxo!
- vê lá se sará com’o o do ôtro ano, que entrava p’ra lá um homem bêbado e saía de lá bom.
- olha, o mano Tónico já se maquinou.
- Ora, s’ee mora lá numa lonjura daquelas e tem lá a mulher e as filhas à espera, c’aquilo Sá piores c’uma travoada espanhola!
- Bem, vamo-nos tirando.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.